As comidas que marcaram minha vida

Nasci no interior da Bahia, Vitória da Conquista, meu pai trabalhava na fazenda de meu avô e minha mãe era professora de tecnologia de alimentos na universidade da cidade. Minha vida transita entre esses dois mundos até uns 6 anos de idade. Quando meu pai perdeu a fazenda para o banco, aquela coisa toda do governo do presidente Color, eu acho.

Neste tempo na fazenda, eu lembro de andar de cavalo sozinha e confiar plenamente no cavalo, pois meu pai confiava nele. Aquilo era mágico. Lembro da montanha íngreme que o cavalo descia, do córrego que ele atravessava. Eu era simplesmente levada por ele. O cavalo sabia o que tinha que fazer, eu só precisava ter pernas firmes e segurar as rédeas. De certa forma isso me fez acreditar na vida por muito tempo, mas com o tempo fui perdendo essa confiança.

Me lembro quando pequena na fazenda e, uma moça me ensinou a comer feijão, arroz e farinha com as mãos fazendo um bolinho único. Amei este jeito íntimo e caloroso de comer. A roça não tinha a diversidade de comidas que eu via na cidade, mas me tornava muito mais próxima do alimento. Lembro de deitar com o rosto no chão procurando morangos vermelhos que estavam amadurecendo devagar no pé. Aquilo era tempo demais pra comer um pequeno morango, eu esperei por dias. Na cidade eles são oferecidos aos montes no supermercado.

Com certeza que o alimento tem valores diferentes para quem vive na cidade e para quem vive no campo. Valor não é preço, né? Certamente eu não fiz nenhuma reflexão assim com seis anos porém, carrego comigo este valor plantado na infância.

Da Bahia o melhor era o café da manhã na casa do meu avô Valdomiro e da minha avó Almerinda. Quem cozinhava era Rosa, um ser pequeno de um coração gigante. O melhor beiju de goma com manteiga do mundo. Cuscuz de milho com leite de coco, aipim cozido, bananada, bolo de aipim. Não sei porque quando penso na palavra aipim minha boca saliva mais do que para a palavra mandioca.

Meus pais então abriram um restaurante de comida-a-quilo. Eu gostava do ambiente, de ver as pessoas comendo, de conversar com pessoas diferentes, de experimentar pratos novos. Eu ajudava nos dias da semana, recolhia os pratos durante uma hora apenas, logo depois do meu almoço, depois ia pra aula de piano ou de inglês. Chegava morta em casa. A rotina era um pouco chata e eles trabalhavam demais.

Logo isso os separou e fomos com minha mãe para Belo Horizonte. Ali eu já estava mais urbanoide que nunca. No desconhecido da adolescência procurando ser aceita a todo custo, ansiosa por agradar, meti os pés pelas mãos do início ao fim deste período árduo e tortuoso em minha vida. Coincidentemente a comida desta fase foi horrível, baseada em comida congelada, comida de lanchonete e restaurantes. Salgadinhos, frituras muito açúcar pra saciar a carência e meu corpo parecia uma sanfona. Hoje consigo rir de tudo, ainda bem.

Quando saí da casa da minha mãe e quis cozinhar minha própria comida passei a ligar  quase todos os dias para pedir receitas ou dicas para a minha avó materna. Pensar na comida dela me levava de volta pra casa. Dona Maizé, a maior referência de boa comida que eu tenho. Existe ali alguma uma técnica ancestral que não foi passada diretamente para ela, mas com certeza ta no sangue. Dela vem este o sobrenome francês que usa menos alho e mais cebola e não gosta de pão de queijo. Sabe, minha avó Maizé é incrível. Ela cozinha qualquer coisa que você quiser. Na verdade que ela quiser. Uma artista que só faz o que quer. É uma fada dos doces. Amo demais! Atribuo grande parte dos meus talentos artísticos é ela. Venero sua saúde mental e seu corpo forte e esbelto aos 80 anos.

Meus pais me apresentaram desde muito cedo sabores exóticos como o queijo mofado que eu amava, chamado gorgonzola, comida chinesa, árabe. Eu sempre achei fantástico experimentar essas comidinhas estranhas de outras partes do mundo.

E claro que tento trazer tudo isso de volta na minha vida e para minha família. Eu amo comer comida boa, nostálgicas e exóticas, por isso que eu amo cozinhar e experimentar. Todo desafio de fazer isso aqui no campo é divertido e saboroso.

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    Maria Eugênia Figueira de Oliveira Hollomon

    Estas histórias contadas pela Paulinha traz a minha memória doces lembranças desta menina que tanto amamos e admiramos.Que Deus a abençoe,muito em todos os seus projetos.

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