A vida no campo, filhos e trabalho

Bem, quando me mudei para o campo, já sabia que queria ter e criar a minha família aqui e ver meus filhos desfrutando livremente o contato com a natureza. Eu também desde o começo defendi que os filhos deveriam ser cuidados pelos pais, principalmente neste início da vida. Mas eu não fazia a menor ideia do quanto esta dedicação exclusiva seria difícil e que deveria mudar ou adiar muitos projetos profissionais. Nunca imaginei que em diversos momentos teria a sensação angustiante de não estar realizando um trabalho profissional e remunerado.

Na verdade não percebi, mas passei a  trabalhar mais do que nunca. Ansiosa, para iniciar um trabalho e, angustiada por não conseguir executar no tempo esperado. Eu não fazia ideia que trabalhar em casa e ao lado da criança pode gerar uma demanda dupla ou tripla. Tudo isso pode se tornar exaustivo, frustrante e desencorajador.

Eu sou arquiteta de formação com mestrado na mesma área, amo minha profissão. Eu tenho especial interesse pela bioconstrução, pelas residências mínimas, ecológicas e de baixo custo. Adoro o desafio de conseguir por no papel o sonho de outra pessoa. Fico animadíssima com cada projeto, principalmente quando  eu consigo aplicar os conceitos da permacultura e da bioconstrucão.

Porém a vida de  trabalhar em casa é ter que conciliar a atenção dada aos filhos e as demandas de cuidar de tudo.

Aqui na roça conseguir pessoas disponíveis para trabalhar é muito difícil, pois moro longe de tudo.  É sério! São dois quilômetros até o vilarejo mais próximo. É difícil achar um ser animado pra vir trabalhar aqui. Sem falar que tem pouca gente disponível mesmo.

Então esta é uma das dificuldade de estar muito distante da cidade, e principalmente por que eu sou cria da cidade e mais adaptada a ela que ao campo. Já que eu vivi a maior parte da minha vida nas zonas urbanas.

Então tive que encarar muitos desafios de uma vez só. Imagina que aventura! Com certeza muita coragem, fé na vida e determinação quando fiz esta escolha. Adaptar na vida do campo, aprender a cultivar minha comida, e tentar transformar isso numa forma de sustento, desenvolver profissionalmente projetos de arquitetura, praticar a bioconstrução, em uma região nova, sem conhecer ninguém. Ufa !

Eu e  meu companheiro que tem suas demandas de trabalho externo e a mesma necessidade de prover o sustento da família resolvemos encarar o nosso projeto de vida:  transformar nosso espaço em uma fazenda permacultural e ter sustentabilidade alimentar. Desenvolver projetos educacionais recebendo pessoas e realizando a troca e a disseminação dos idéias da permacultura.

Nos adaptar a vida permacultural é nos desconstruir diariamente, pois não foi pra ela que fomos educados.

No meio disso eu sou mãe e preciso me dedicar plenamente, olhar nos olhos, entender as necessidades por trás dos choros e gritos. Atender aos seres mais fofinhos do mundo que ainda não sabem comer sozinhos, beber água, se limpar e nem dormir sozinhos. Mas te amam, te veneram, te beijam, te abraçam, precisam estar constantemente ao seu lado, sorriem e brincam o tempo todo.

Falando assim parece impossível. Mas não é, só é difícil mesmo. Mas o que é fácil nesta vida? Se for muito fácil não tem nem graça, não é mesmo?

Eu sinto que aprendi tanto nestes 6 anos aqui. Que não tenho dúvidas do quanto vale a pena. O mais importante é está conectada com o um propósito, ser coerente com seus princípios e valores. De resto é florescer! Aprender a amar tudo, todos, inclusive você. Não por que é lindo, mas por que é preciso. Ser tolerante e compreensivo com você mesmo e com o outro. Tudo isso tem sido um processo de autoconhecimento e aceitação constante.

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